Como escolher o NCM correto na importação da China

Escolher o NCM correto é uma das decisões mais importantes em qualquer operação de importação. Muitos empresários se preocupam com preço, frete e prazo, mas deixam a classificação fiscal para depois.

8 min de leitura
16 de jun.
Profissional lendo código de barras em caixas de papelão com laptop ao lado, representando o processo de classificação fiscal NCM na importação da China

Esse é um erro que pode custar caro. O código NCM impacta diretamente os impostos que vão incidir sobre a operação, influencia a necessidade de licenças e certificações e pode determinar se a carga será liberada rapidamente ou ficará retida pela Receita Federal.

Por isso, este guia mostra como definir a classificação fiscal correta, quais são os riscos de um NCM incorreto e como evitar problemas antes de fechar qualquer pedido.

O que é NCM e por que ele é tão importante na importação?

NCM é a sigla para Nomenclatura Comum do Mercosul. Trata-se do código utilizado no Brasil e nos demais países do Mercosul para identificar e classificar mercadorias.

Todo produto importado precisa ter um código NCM definido. Esse código possui 8 dígitos e segue uma estrutura padronizada:

  • 2 primeiros dígitos: capítulo
  • 4 primeiros dígitos: posição
  • 6 primeiros dígitos: subposição
  • 8 dígitos: item e subitem específicos do Mercosul

Exemplo:

  • 8471.30.12 → notebook
  • 8517.13.00 → smartphone
  • 9403.60.00 → móveis de madeira

Os 6 primeiros dígitos seguem o Sistema Harmonizado internacional, adotado por dezenas de países. Os 2 últimos são específicos do Mercosul.

O NCM influencia diversos aspectos tributários e regulatórios da importação, incluindo:

  • Qual será a alíquota do Imposto de Importação
  • Qual percentual de IPI será aplicado
  • Se a mercadoria exige licença de importação
  • Se o produto depende de anuência de órgãos como ANVISA, INMETRO ou MAPA
  • Se há antidumping, ex-tarifário ou tratamento especial

Em outras palavras, dois produtos aparentemente semelhantes podem ter cargas tributárias diferentes em razão da classificação fiscal aplicável.

Como o NCM impacta os impostos na importação

O código NCM está diretamente ligado ao valor final pago em tributos: cada código possui alíquotas específicas. Isso significa que um enquadramento incorreto pode fazer a empresa pagar imposto a mais ou, pior, pagar menos do que deveria e sofrer autuação depois.

Imposto de Importação (II)

O Imposto de Importação varia conforme a classificação fiscal do produto.

Por exemplo:

  • Um equipamento pode ter II de 12%
  • Outro equipamento parecido, mas classificado em outro NCM, pode ter II de 20%

Essa diferença impacta imediatamente o custo da operação.

IPI

O IPI também depende do NCM. Existem produtos com IPI zerado, enquanto outros podem ter alíquotas de 5%, 10% ou mais.

Mesmo pequenas diferenças de classificação podem gerar impacto relevante no custo final.

ICMS

Na importação, o ICMS incide sobre uma base de cálculo que inclui o valor aduaneiro, o Imposto de Importação, o IPI, o próprio ICMS e outros encargos previstos na legislação aplicável.

Por isso, diferenças na classificação fiscal podem repercutir em toda a cadeia tributária e impactar também o valor do ICMS devido.

Se quiser entender melhor todos os tributos envolvidos, vale consultar o conteúdo sobre impostos na importação da China.

Consequências de escolher o NCM errado

Um erro de NCM na importação pode gerar multa, retenção e pagamento adicional de tributos. As principais consequências incluem:

Multa

Quando a Receita Federal entende que a classificação fiscal está incorreta, a empresa pode sofrer autuação. Dependendo do caso, poderá haver exigência de tributos complementares, incidência de juros e aplicação das penalidades previstas na legislação aduaneira e tributária.

Retificação da declaração

Se o erro for identificado antes do desembaraço, normalmente será necessário corrigir a declaração de importação.

Isso gera:

  • Custos adicionais com despachante
  • Armazenagem extra
  • Atraso na entrega
  • Risco de perda de prazo comercial

Atraso e retenção da carga

Um NCM incorreto aumenta a chance de a carga cair em canal de conferência.

Nesses casos, a Receita pode exigir:

  • Catálogo técnico
  • Fotos
  • Ficha técnica
  • Composição do produto
  • Explicações adicionais

Enquanto isso, a mercadoria permanece parada.

Esse é um dos problemas que podem gerar exigências adicionais e atrasos no desembaraço aduaneiro, tema abordado entre os principais erros que travam a importação na Receita Federal.

Recolhimento adicional de impostos

Se a classificação correta da mercadoria implicar numa tributação maior, a empresa terá de pagar a diferença.

Dependendo do caso, isso pode envolver:

  • Diferença de tributos
  • Juros
  • Penalidades previstas na legislação aplicável

Em alguns casos, a cobrança acontece meses ou até anos após a importação.

Passo a passo para escolher o NCM correto

Não existe atalho seguro para classificação fiscal. Usar apenas o nome do produto informado pelo fornecedor chinês costuma ser um erro. Termos genéricos como "máquina", "equipamento", "peça" ou "acessório" não são suficientes.

Escolher o NCM correto exige análise técnica e validação:

1. Analisar descrição técnica detalhada do produto

O primeiro passo é reunir o máximo possível de informações sobre a mercadoria.

Você precisa entender:

  • Material
  • Função principal
  • Composição
  • Forma de uso
  • Potência
  • Dimensões
  • Aplicação
  • Componentes

Quanto mais detalhada for a descrição técnica do produto, maior a chance de encontrar o código correto.

Por exemplo, não basta dizer "luminária". É preciso saber:

  • Se é LED ou convencional
  • Se é de teto, mesa ou parede
  • Se possui bateria
  • Qual a tensão
  • Se é residencial ou industrial

Cada detalhe pode alterar o enquadramento fiscal.

2. Consultar a NCM e a TIPI

A consulta deve começar pela estrutura da NCM, observando os capítulos, posições, subposições e descrições aplicáveis ao produto.

Por exemplo:

  • Capítulo 84 → máquinas e equipamentos
  • Capítulo 85 → produtos elétricos e eletrônicos
  • Capítulo 94 → móveis

Dentro de cada capítulo, existem subdivisões progressivamente mais detalhadas. Um erro comum é encontrar um código "parecido" e encerrar a busca cedo demais.

Já a TIPI (Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados) pode ser utilizada como referência complementar, pois apresenta os códigos NCM juntamente com as respectivas alíquotas de IPI.

3. Verificar notas explicativas do sistema harmonizado

As Nesh (Notas Explicativas do Sistema Harmonizado) ajudam a interpretar corretamente a classificação. Elas mostram:

  • Quais produtos entram em determinado código
  • Quais produtos ficam excluídos
  • Diferenças entre NCMs semelhantes
  • Critérios técnicos para enquadramento

Essas referências são especialmente úteis quando existe dúvida entre códigos semelhantes.

Também é recomendável utilizar o Sistema Classif, disponibilizado pela Receita Federal no Portal Único de Comércio Exterior. A plataforma reúne a NCM, Notas Legais, Nesh, decisões de classificação fiscal e informações sobre tratamento tributário e administrativo.

4. Conferir histórico de importação similar

Também vale analisar como produtos semelhantes já foram classificados em operações anteriores. Isso pode ser feito por meio de:

  • Importações anteriores da própria empresa
  • Histórico do despachante
  • Soluções de consulta tributária
  • Bancos de dados de comércio exterior

Mas atenção: copiar o mesmo NCM utilizado por outro importador não garante que ele esteja correto. O histórico deve ser usado apenas como referência complementar.

5. Validar com especialista tributário

Por fim, a melhor prática é validar o código com um especialista em comércio exterior, tributação ou despacho aduaneiro.

Esse apoio é especialmente importante quando:

  • O produto possui descrição complexa
  • Existe dúvida entre dois códigos
  • A operação é de alto valor
  • Há risco de exigência regulatória

Na maioria dos casos, o custo do suporte é muito menor do que o prejuízo causado por um NCM incorreto.

Exemplo prático: como o NCM altera o custo final

Imagine uma empresa importando um equipamento da China com valor FOB equivalente a R$ 100.000 (valor hipotético para fins de comparação).

No primeiro cenário, o produto é classificado em um NCM com II de 12%.

  • FOB: R$ 100.000
  • II: 12% = R$ 12.000

Agora imagine que, após fiscalização, a Receita conclua que o produto deveria estar em outro NCM, com II de 20%.

  • FOB: R$ 100.000
  • II: 20% = R$ 20.000

Diferença imediata: R$ 8.000

Mas esse não é o impacto total. Considerando que IPI e ICMS também são calculados sobre bases maiores, o aumento final tende a ser significativamente superior à diferença inicial de II.

Veja a comparação:

Tabela comparativa entre dois cenários de NCM mostrando impacto no Imposto de Importação: NCM A com alíquota de 12% e NCM B com 20%, gerando diferença imediata de R$ 8.000 e impacto total significativamente maior

Em operações com margem apertada, essa diferença pode transformar uma importação lucrativa em um prejuízo.

Por isso, antes de fechar qualquer pedido, é essencial calcular o custo total da importação considerando o código fiscal aplicável.

NCM e exigências regulatórias (ANVISA, INMETRO, MAPA)

Além dos impostos, determinados NCMs estão associados a tratamentos administrativos específicos, que podem exigir:

  • Licença de importação
  • Certificações compulsórias
  • Registros ou anuência de órgãos governamentais

Exemplos:

  • Equipamentos médicos → ANVISA
  • Cosméticos → ANVISA
  • Brinquedos → INMETRO
  • Determinados produtos elétricos e eletrônicos → INMETRO
  • Produtos de origem animal ou vegetal → MAPA

Isso significa que dois produtos semelhantes, mas classificados em códigos diferentes, podem ter exigências completamente distintas. Em muitos casos, a empresa só descobre isso quando a carga já está parada.

Por isso, é importante verificar previamente quais são os produtos que exigem ANVISA ou INMETRO.

É possível reduzir impostos escolhendo outro NCM?

Essa é uma dúvida comum, mas a resposta exige cuidado. Não é permitido escolher um código apenas porque ele possui imposto menor.

A classificação fiscal deve refletir exatamente as características reais do produto.

Se a empresa utilizar deliberadamente um NCM inadequado para pagar menos imposto, os riscos incluem:

  • Multa
  • Juros
  • Cobrança retroativa
  • Retenção da carga
  • Fiscalização reforçada

Planejamento tributário não significa "procurar o NCM mais barato".

O planejamento correto consiste em:

  • Classificar corretamente o produto
  • Verificar se existem benefícios legais aplicáveis
  • Identificar possíveis ex-tarifários
  • Aproveitar reduções legítimas

Ou seja: é possível reduzir custos, mas apenas quando a classificação está tecnicamente correta.

Vale a pena definir o NCM sozinho?

Para produtos muito simples, alguns importadores tentam definir o NCM por conta própria. No entanto, conforme a operação cresce, o risco aumenta.

Isso acontece porque muitos produtos possuem:

  • Mais de uma classificação aparentemente aplicável
  • Diferenças técnicas pequenas, mas relevantes
  • Impacto tributário elevado
  • Exigências regulatórias específicas

Nesses casos, o custo de um erro costuma ser muito maior do que o custo do apoio profissional.

Faz sentido buscar suporte especializado, especialmente quando:

  • O produto é complexo
  • Existe dúvida entre dois códigos
  • A operação tem valor elevado
  • O produto exige ANVISA, INMETRO ou MAPA
  • A empresa pretende importar regularmente

Além de reduzir risco, isso ajuda a criar previsibilidade financeira.

O ideal é combinar a classificação fiscal com um planejamento completo de custos na importação da China.

Dessa forma, a empresa consegue prever tributos, margem, capital necessário e exigências regulatórias antes mesmo de fechar o pedido.

Perguntas frequentes sobre NCM na importação da China

O que é NCM?

NCM é o código de 8 dígitos utilizado no Brasil para classificar mercadorias e definir impostos e exigências regulatórias.

Onde consultar o código NCM?

Você pode consultar o código NCM por meio do Sistema Classif da Receita Federal, da TIPI, das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (Nesh), de Soluções de Consulta da Receita Federal e de outras bases oficiais de classificação fiscal.

Posso usar o mesmo NCM do fornecedor chinês?

Não necessariamente. O fornecedor pode utilizar uma classificação diferente da aplicada no Brasil. O ideal é validar o enquadramento fiscal localmente.

O que acontece se o NCM estiver errado?

A empresa pode ser autuada, ter a carga submetida a exigências adicionais, precisar retificar a declaração e recolher diferenças de tributos, juros e penalidades previstas na legislação aplicável.

O NCM influencia no valor do imposto?

Sim. O NCM influencia a tributação da importação, incluindo o Imposto de Importação e o IPI, além de afetar o cálculo do ICMS e definir diversos tratamentos administrativos e exigências regulatórias.

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